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As necessidades humanas

Colhendo_flores

Na psicologia, Abraham Maslow tornou-se conhecido por elaborar uma caracterização gráfica das necessidades humanas em formato de pirâmide.

No desenho por ele proposto são elencadas as diferentes áreas a que todos devemos estar atentos ao longo de nossas vidas para garantir uma existência equilibrada e feliz:

piramide das necessidades humanas

Figura: pirâmide das necessidades humanas (clique para ampliar). Fonte: GoodTherapy.Org

A “pirâmide das necessidades humanas”, como ficou conhecida esta figura, retrata também as diferentes etapas do desenvolvimento humano: ao longo da vida vamos adquirindo experiência e galgando os degraus rumo à autorrealização e autotranscendência.

Ela mostra, da base ao topo, as seguintes necessidades a serem atendidas:

Fisiológicas: Tudo que é necessário para manter a vida do corpo físico: respirar, comer, beber, etc.

Segurança: Ter saúde, estar livre de ameaças à integridade física/emocional/mental, segurança financeira.

Pertencimento: A uma comunidade, a relacionamentos de amizade e de amor. Estar bem nas questões de família, parceiros, cidadania.

Autoestima: Ter a si mesmo em boa consideração, autoconfiança, sentir-se aceito como se é.

Cognitivas: A busca por conhecer assuntos e atribuir sentidos ao que percebe.

Estéticas: A busca pela experiência de beleza, equilíbrio e harmonia das formas.

Autorrealização: A sensação de se estar vivendo o próprio potencial. O que deixa cada um autorrealizado varia muito de pessoa a pessoa.

Autotranscendência*: O sentido de conexão com a coletividade do planeta, com o universo, os sentidos mais profundos e espirituais da existência.

(*Este último nível foi acrescentado à pirâmide a partir do trabalho do psiquiatra austríaco Viktor Frankl, criador de uma abordagem psicoterápica chamada logoterapia, que ocupa-se primordialmente de auxiliar as pessoas a encontrar sentidos de vida.)

Uma subida não linear

Problemas ao longo do caminho podem acontecer e muitas vezes nos vemos precisando, mesmo já adultos, tendo de voltar a atender necessidades que antes já estavam preenchidas. É o caso de quem perde o emprego, por exemplo, e volta a se deparar com a necessidade de tomar providências para garantir a sua sobrevivência e segurança.

É natural que nem todas as pessoas ao final da sua jornada estarão bem resolvidas com todos os níveis da pirâmide, pois muitos fatores – tais como a pobreza, privações, doenças, limites individuais e outras circunstâncias – podem interferir nas possibilidades de desenvolvimento de cada um.

Ferramenta de autoconhecimento

Em meus atendimentos, eventualmente apresento aos pacientes a imagem desta pirâmide, pois penso que ela nos lembra de forma simples e autoexplicativa as diferentes dimensões das quais todos somos feitos e às quais devemos, se quisermos cuidar bem de nós, prestar sempre atenção.

Nossas diferentes necessidades são interconectadas e afetam umas às outras. Uma pessoa com a saúde física precária, por exemplo, pode sofrer de maior vulnerabilidade emocional. Nesses casos, parte da psicoterapia envolve motivá-la a honrar o próprio corpo como se fosse o templo da alma, procurando ficar mais em dia com as necessidades do seu corpo físico.

Em outros casos, observo que a experiência de não ter tido uma boa segurança física ou afetiva na infância parece desencadear na idade adulta maiores dificuldades com a manutenção de uma boa autoestima, ou dificuldades em manter relacionamentos saudáveis e seguros.

Compreender como essas diferentes dimensões da existência se entrelaçam em nossa história particular é um exercício terapêutico. Ele passa por falar de como nossas necessidades estão ou não sendo atendidas – ao longo de nossa história, no nosso contexto presente e nos planos que temos para o futuro.

Exercícios de autoconhecimento como esse nos ajudam a ter mais clareza a respeito de quem somos, identificando as mudanças que estão ao nosso alcance para podermos não só suprir melhor as nossas necessidades como também desenvolver os nossos melhores potenciais.

Referências:

Maslow’s Hierarchy of Needs. Verbete do site GoodTherapy.Org. Link: https://www.goodtherapy.org/blog/psychpedia/maslow-hierarchy-needs . Acessado em 19/4/2018.

Frankl, Viktor. Man’s Search for Meaning. London: Rider, 2008.


A conta bancária emocional dos relacionamentos

Investir_no_amor

Por Leonardo D’Ippolito

Nos filmes românticos é comum que alguns momentos mágicos sejam apresentados como o principal combustível de um bom relacionamento. Aquele jantar especial, aquela proposta de casamento surpreendente, as demonstrações de amor glorificantes… como quando ele invade a sala do trabalho da mulher para se declarar. Nas telas são esses tipos de evento que fazem a paixão, o amor e o final feliz.

Na vida real as coisas podem ser um pouco diferentes. Pois são os pequenos momentos, aparentemente insignificantes, que somados vão construir ou erodir o amor.

Imagine um marido saindo de casa para um compromisso. A mulher pergunta de última hora: ‘você sabe se acabou o sabão em pó?’. O marido pode responder de diferentes formas. ‘Não posso ver isso agora, já estou de saída’. Outra possível resposta: ‘não sei se acabou, mas deixa que eu aproveito e pego um no supermercado na volta’. Esse é um momento, à primeira vista, insignificante. Mas cada uma das respostas do marido vai gerar um sentimento diferente na esposa. Na primeira, o marido está se distanciando dela. Na segunda, ele está sendo inclusivo e considerativo.

Os relacionamentos são como uma conta bancária. Ao longo do tempo o casal pode fazer nela depósitos e saques. Quando a pessoa se vira para o seu parceiro de modo empático, ela está fazendo um depósito. Quando se distancia ou não se conecta com o sentimento do parceiro, está fazendo um saque. E esses saques e depósitos acontecem a toda hora na vida de um casal. Cada pequeno momento de interação pode gerar um depósito ou um saque. Eles podem tanto formar um colchão de segurança para tempos difíceis – um bom saldo na conta bancária emocional – ou podem gerar uma dívida difícil de ser superada.

O cruzeiro VIP e a viagem romântica para uma ilha grega não vão sozinhos fazer muito por um relacionamento. A satisfação de um casal com seu relacionamento está muito mais ligada ao quanto eles cuidam da conta bancária emocional, das atitudes que cada um tem pelo outro nas ocasiões mais simples e cotidianas da vida.

Se uma pessoa contribui positivamente para a conta emocional do casal, e se há um bom saldo nessa conta, no dia em que um conflito aparecer haverá uma disposição muito melhor do parceiro em querer resolver o conflito de modo tranquilo. Nesse cenário o casal vai sentir que ‘tudo bem, existe um conflito aqui, e o momento agora pode ser ruim, mas temos um histórico de coisas boas entre nós que nos ajuda a perceber que esse conflito é menos importante do que parece’.

Já quando há uma dívida, qualquer coisa boa poderá parecer ruim. As dívidas na conta bancária emocional podem provocar reações negativas automatizadas a situações que poderiam ser vistas como neutras ou positivas. Se as marcas negativas se acumulam em demasia, o casal tende a experimentar mais daquilo que o professor de psicologia John Gottman chama de ‘cavaleiros do apocalipse’ num relacionamento: a defensividade, a indiferença, a crítica destrutiva e o desprezo. A presença frequente desses sintomas indica que as dívidas estão se acumulando perigosamente.

Assim como é possível uma pessoa sair do vermelho em suas finanças, é possível a reversão de um padrão ruim da conta bancária emocional do casal para um padrão mais saudável. Uma atitude básica e bem prática neste sentido é os membros do casal lembrarem de fazer mais ‘depósitos’, estando atentos às tentativas de conexão do parceiro que acontecem a todo momento e respondendo a elas de modo positivo.

Os caminhos para a recuperação da saúde do relacionamento passam ainda pelo aprofundamento do conhecimento do outro (seus medos, planos, preferências e sonhos); pelo cultivo da afeição e da admiração (partindo do princípio que todos possuem elementos admiráveis); pelo voltar-se um para o outro com confiança e abertura; o aceitar a influência do parceiro (ou se permitir entrar em algum grau no mundo dele/a); e também pela criação e cultivo de objetivos compartilhados e significados de vida em comum. A arte de se relacionar se aperfeiçoa na medida em que vamos colocando em prática as boas resoluções e atitudes.