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A conta bancária emocional dos relacionamentos

Investir_no_amor

Por Leonardo D’Ippolito

Nos filmes românticos é comum que alguns momentos mágicos sejam apresentados como o principal combustível de um bom relacionamento. Aquele jantar especial, aquela proposta de casamento surpreendente, as demonstrações de amor glorificantes… como quando ele invade a sala do trabalho da mulher para se declarar. Nas telas são esses tipos de evento que fazem a paixão, o amor e o final feliz.

Na vida real as coisas podem ser um pouco diferentes. Pois são os pequenos momentos, aparentemente insignificantes, que somados vão construir ou erodir o amor.

Imagine um marido saindo de casa para um compromisso. A mulher pergunta de última hora: ‘você sabe se acabou o sabão em pó?’. O marido pode responder de diferentes formas. ‘Não posso ver isso agora, já estou de saída’. Outra possível resposta: ‘não sei se acabou, mas deixa que eu aproveito e pego um no supermercado na volta’. Esse é um momento, à primeira vista, insignificante. Mas cada uma das respostas do marido vai gerar um sentimento diferente na esposa. Na primeira, o marido está se distanciando dela. Na segunda, ele está sendo inclusivo e considerativo.

Os relacionamentos são como uma conta bancária. Ao longo do tempo o casal pode fazer nela depósitos e saques. Quando a pessoa se vira para o seu parceiro de modo empático, ela está fazendo um depósito. Quando se distancia ou não se conecta com o sentimento do parceiro, está fazendo um saque. E esses saques e depósitos acontecem a toda hora na vida de um casal. Cada pequeno momento de interação pode gerar um depósito ou um saque. Eles podem tanto formar um colchão de segurança para tempos difíceis – um bom saldo na conta bancária emocional – ou podem gerar uma dívida difícil de ser superada.

O cruzeiro VIP e a viagem romântica para uma ilha grega não vão sozinhos fazer muito por um relacionamento. A satisfação de um casal com seu relacionamento está muito mais ligada ao quanto eles cuidam da conta bancária emocional, das atitudes que cada um tem pelo outro nas ocasiões mais simples e cotidianas da vida.

Se uma pessoa contribui positivamente para a conta emocional do casal, e se há um bom saldo nessa conta, no dia em que um conflito aparecer haverá uma disposição muito melhor do parceiro em querer resolver o conflito de modo tranquilo. Nesse cenário o casal vai sentir que ‘tudo bem, existe um conflito aqui, e o momento agora pode ser ruim, mas temos um histórico de coisas boas entre nós que nos ajuda a perceber que esse conflito é menos importante do que parece’.

Já quando há uma dívida, qualquer coisa boa poderá parecer ruim. As dívidas na conta bancária emocional podem provocar reações negativas automatizadas a situações que poderiam ser vistas como neutras ou positivas. Se as marcas negativas se acumulam em demasia, o casal tende a experimentar mais daquilo que o professor de psicologia John Gottman chama de ‘cavaleiros do apocalipse’ num relacionamento: a defensividade, a indiferença, a crítica destrutiva e o desprezo. A presença frequente desses sintomas indica que as dívidas estão se acumulando perigosamente.

Assim como é possível uma pessoa sair do vermelho em suas finanças, é possível a reversão de um padrão ruim da conta bancária emocional do casal para um padrão mais saudável. Uma atitude básica e bem prática neste sentido é os membros do casal lembrarem de fazer mais ‘depósitos’, estando atentos às tentativas de conexão do parceiro que acontecem a todo momento e respondendo a elas de modo positivo.

Os caminhos para a recuperação da saúde do relacionamento passam ainda pelo aprofundamento do conhecimento do outro (seus medos, planos, preferências e sonhos); pelo cultivo da afeição e da admiração (partindo do princípio que todos possuem elementos admiráveis); pelo voltar-se um para o outro com confiança e abertura; o aceitar a influência do parceiro (ou se permitir entrar em algum grau no mundo dele/a); e também pela criação e cultivo de objetivos compartilhados e significados de vida em comum. A arte de se relacionar se aperfeiçoa na medida em que vamos colocando em prática as boas resoluções e atitudes.